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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Ministério da Saúde faz a apologia da prostituição e depois recua. Ou: Não se trata de um erro, mas de um método. Eu provo!

Tentar impor limites ao petismo não é nem fácil nem difícil; é inútil. Vocês se lembram da confusão criada pelo kit gay na gestão do então ministro da Educação, Fernando Haddad. Entre outras barbaridades, um vídeo dizia que ser bissexual é mais vantajoso do que ser hétero; um material impresso estimulava crianças do ensino fundamental a procurar num caça-palavras o nome das pessoas que não se sentem confortáveis com seu órgão genital… Quando a coisa veio a público, Haddad recorreu à desculpa nº 13 do Manual do Despiste Petista: “Eu não sabia”. O material foi suspenso, e ninguém respondeu pelo prejuízo causado por sua produção. Muito bem. Vejam este cartaz.
Ele faz parte de uma campanha contra a AIDS do Ministério da Saúde, cujo titular é Alexandre Padilha, um dos queridinhos de Lula e pré-candidato do partido ao governo de São Paulo. É isso mesmo que vocês estão lendo e vendo. O governo brasileiro decidiu “combater a AIDS” com a afirmação de identidade da prostituta. Escrevi hoje de manhã a respeito. Esqueçam tudo o que se aprendeu sobre “oprimido” e “opressor”. Se, antes, a prostituição era considerada fruto de uma conjunção infeliz de circunstâncias sociais com escolhas individuais, digamos, imprudentes, passou a ser motivo de orgulho.
Leiam trecho de reportagem da VEJA.com. Volto em seguida.
(…)
Após a repercussão negativa da campanha, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o material não passou pelo seu aval: “Do Ministério da Saúde, é papel ter mensagens específicas para estimular a prevenção das DSTs fundamentadas nas profissionais do sexo, que é um grupo bastante vulnerável”. “Enquanto eu for ministro, campanhas assim não vão passar pelo ministério”, afirmou Padilha, cotado como candidato do PT ao governo de São Paulo nas eleições do ano que vem.
A iniciativa surge logo após uma série de fiascos em campanhas de Saúde na gestão do petista. Em março deste ano, o Ministério da Saúde suspendeu distribuição de um material direcionado para o público adolescente e que tinha como tema a prevenção da aids. O kit era formado por seis revistas em quadrinhos e tratava de assuntos como gravidez na adolescência, uso de camisinha e homossexualidade. Na época, mais uma vez Padilha afirmou que a distribuição do material foi realizada sem o seu consentimento, além de não ter sido aprovado pelo conselho editorial. (…) No mês passado, o ministério gastou 10 milhões de reais em uma campanha que informava, de forma equivocada, que pessoas com problemas relacionados a planos de saúde particulares deveriam ligar para a Ouvidoria do SUS, que trata da saúde pública. A campanha precisou ser corrigida.
Voltei
A abordagem estúpida, sempre na linha pé-na-jaca, das campanhas de combate à AIDS e DSTs no geral não é um erro, um deslize, um equívoco. Trata-se de um método. Há muitos anos venho abordando este assunto. A razão é simples: o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação relegam os assuntos da sexualidade a ONGs e militantes de causas: gays, feministas etc. A Saúde dispensa o auxílio de médicos e infectologistas, e a Educação, o dos pedagogos. Assim, em vez de um trabalho técnico, voltando para a orientação, o que se tem é proselitismo.
Em fevereiro do ano passado, o Ministério da Saúde retirou do Portal sobre Aids, Doenças Sexualmente Transmissíveis e Hepatites Virais, que o órgão mantém na internet, um vídeo com cenas de um casal homossexual trocando carícias em uma boate. O filme fazia parte da campanha de prevenção a doenças transmissíveis por relações sexuais lançada para o Carnaval daquele ano. De acordo com a assessoria de imprensa da pasta, o vídeo foi feito para ser exibido exclusivamente em locais fechados, que recebem público homossexual, e não deveria ter sido tornado disponível na rede. Segundo o ministério, a postagem do vídeo no portal foi “um equívoco”. Segue para quem quiser ver. Volto depois.
Equívoco?
O erro do ministério nesse filme nada tem a ver com o fato de os parceiros serem gays. Escrevi  então a respeito. O seu erro — brutal, escandaloso, incorrigível — era de outra natureza, sintetizada na seguinte frase do locutor. “Na empolgação, rola de tudo, só não rola sem camisinha”. Epa! Se existe camisinha, então tudo é permitido? Acho que não! Trata-se, mais uma vez, de uma pregação irresponsável. Basta ver o filme para constatar que há nele a aceitação tácita — mais do que isso: há o incentivo — ao sexo entre pessoas que acabaram de se conhecer.
Ora, a AIDS não é a única doença que se pode contrair na intimidade total entre não íntimos. A camisinha é só uma barreira física. O que realmente pode combater a doença são as interdições morais. A palavra assusta os ignorantes e os idiotas porque eles associam o termo “moral” ao “moralismo” como sinônimo de uma vida de hipocrisias e interdições. Não se trata disso. Se uma campanha oficial considera normal, aceitável e até desejável que pessoas que acabaram de se conhecer terminem na cama, então não haverá camisinha que dê jeito. Se ela estiver à mão, bem; se não estiver, bem… Pesquisem a respeito. Uganda tem o programa mais eficiente da África de redução da AIDS. A camisinha é só o terceiro item de uma tríade, que virou política oficial: abstinência sexual, fidelidade no casamento e, sim, a borracha.
Não, não sou doido. Imaginem se o governo pé-na-jaca faria uma campanha pela abstinência… Sou realista. Mas eu aposto: até que a política oficial for de incentivo ao sexo irresponsável, nada feito. Não por acaso, e vocês podem achar os dados na Internet, de fontes confiáveis, a contaminação pelo vírus voltou a crescer entre homossexuais, especialmente os mais jovens, com escolaridade que já lhes permite saber como se dá o contágio.
E por que é assim? Porque o Ministério da Saúde entrega essas campanhas não a médicos, não a estudiosos do comportamento, mas a militantes da causa. E os militantes sempre confundem o combate à AIDS com o que chamam “preconceito”. Há ainda outro fator: o coquetel anti-AIDS está levando muita gente a considerar que a doença é só um mal crônico, que tem controle. E, obviamente, não é. Consta que os efeitos dos medicamentos ainda são bem desagradáveis e impõem consideráveis restrições às pessoas em tratamento.
Enquanto for esse o parâmetro, o combate à AIDS e às DSTs continuará a custar uma fortuna aos cofres públicos e será uma espécie de enxugamento de gelo. Com tudo o que já se sabe sobre algumas doenças, o contágio deveria ser hoje uma exceção, própria apenas das últimas franjas de desinformação do Brasil mais atrasado. E, no entanto, não é assim. O filme e o cartaz não servem para combater as doenças, mas para fazer propaganda de um estilo de vida. De um péssimo estilo de vida, diga-se, no que concerne à saúde. Se alguém duvidar, basta olhar os dados sobre o contágio. O estado fornece hoje camisinha, remédio, informação, tudo de graça. Mais um pouco, vira babá de genitálias.
Esse estado só não tem como fazer a escolha moral em lugar do indivíduo. Se bem que o nosso está fazendo. E faz uma péssima escolha.
Por Reinaldo Azevedo

Portal: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/page/2/